Por que “mais mulheres na política” incomoda tanto?
Opinião

Por que “mais mulheres na política” incomoda tanto?

Tania Tait


As mulheres são maioria da população e, em algumas cidades como Maringá, são 52% e 54 % dentre a população eleitora. As mulheres são chefes de família e estão com mais grau de escolaridade do que os homens.

Paradoxalmente a isso, mulheres ainda recebem os menores salários do que homens no exercício da mesma função; são apenas 10% na política; são as que mais sofrem estupros e agressões. Os índices de feminicídio também colocam o Brasil numa posição vergonha no mundo. Mulheres negras e indígenas ainda padecem de mais discriminação e são as mais atingidas em seus direitos.

Neste momento específico que é o processo eleitoral, toda essa discriminação contra a mulher vem à tona.

As mulheres são chamadas a participar como candidatas. No entanto, uma série de problemas surgem para as mulheres candidatas tanto dentro dos partidos políticos como na sociedade em geral.

Destacam-se dentre os problemas: muitos partidos colocam as mulheres como candidatas fictícias (as famosas laranjas) apenas para cumprir o requisito eleitoral; partidos não dão visibilidade para as candidatas; restringem orçamento e participação nos espaços de divulgação. Em alguns casos, os partidos tentam cercear o direito das mulheres serem candidatas.

A sociedade de modo geral, por outro lado, não valoriza a participação da mulher na política e faz coro ao machismo, depreciando a atuação das candidatas e das mulheres eleitas. Não são raros os exemplos de agressões sexistas e misóginas com relação as mulheres que atuam na política.

Mas, as mulheres estão se organizando para mudar essa situação lamentável da ausência da mulher na política. Além das chamadas realizadas ao longo dos anos pelo Tribunal Superior Eleitoral incentivando as mulheres a serem candidatas, neste ano de 2020 surgem vários movimentos por Mais Mulheres no Poder.

O movimento busca unir as candidatas, independente do partido político, incentivando as candidaturas, mas, também, preparando as mulheres para a disputa eleitoral.

Os movimentos em defesa da atuação das mulheres na política e nos espaços de poder sabem que as mulheres estão em todas as áreas, acompanham os filhos e filhas na escola; levam a família, inclusive idosos para cuidados na área de saúde; movimentam o comércio local e do centro das cidades; circulam nos espaços de lazer e cultura da cidade; entre tantas atividades. Portanto, as mulheres conhecem a realidade, os problemas e tem condições de propor soluções para melhorar a vida de todos e todas.

As mulheres reúnem todas as condições para ter uma atuação forte e decisiva na política. Afinal, a frase atribuída a Michele Bachelet (ex-presidenta do Chile): “Quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Quando muitas mulheres entram na política, muda a política” afirma com convicção a importância das mulheres atuarem na política para fazer a diferença e melhorar a vida das pessoas, com qualidade e dignidade.

Então, fica a pergunta, se as mulheres reúnem todas as condições para exercer o papel da política com maestria, por que “mais mulheres na política” incomoda tanto?


Tania Tait é professora aposentada da UEM, foi presidente do Conselho Municipal da Mulher de Maringá, integrante da Ong Maria do Ingá Direitos da Mulher e do Forum Maringaense de Mulheres. Autora do livro: As mulheres na luta política, lançado em 2020.

Recomendadas pra você
Opinião

Dados da violência mostram a cara do Brasil

Tania Tait A apresentação dos dados sobre violência na 14ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que a violência no…
Opinião

O processo eleitoral, o coronavírus e as mídias digitais

Tania Tait Desde o final dos anos 1980 ocorre processo eleitoral contínuo no Brasil. A cada dois anos tem-se eleições municipais ou…
Opinião

Observações sob um sol de 40 graus

Tania Tait Além da temperatura altíssima e das estatísticas sobre o conoravírus, outras coisas estão acontecendo em Maringá. Sob um sol escaldante,…