Opinião

O rompimento está posto

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O rompimento está posto

O Brasil está pagando muito caro por não ter rechaçado as primeiras bravatas de Bolsonaro, desde quando arquitetou um plano terrorista, ou quando se disse a favor de uma ditadura que matasse, pelo menos, 30 mil, ainda que inocentes. Parte da sociedade foi evasiva, quando não apoiou ostensivamente o ideário totalitário e ditatorial de Bolsonaro. Agora, ele se materializa com a desinibida ameaça do ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, referendada pela nota assinada por Bolsonaro e o vice-presidente, Hamilton Mourão. Segundo os três, as FFAA não reconhecerão uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral que não seja a absolvição da chapa eleita por meio do abuso de redes sociais, nas quais instalou uma indústria de mentiras e ofensas contra os opositores, como já revelado pela Folha de S. Paulo.

O risco que vivem a democracia brasileira e a própria existência da população são assuntos do conhecimento e o interesse mundial. Editoriais dos “The Economist” e “Le Figaro”, entre outros veículos, foram dedicados à política levada à cabo por um presidente negacionista, que não reconhece a dimensão da pandemia e nem o que diz a ciência, que não presta socorro aos pobres e tensiona a relação com os demais poderes da República, deixando clara sua disposição para um rompimento democrático. Durante os governos do PT, o Brasil chegou a ser considerado o país mais feliz do mundo, de quem todos queriam se aproximar. Bolsonaro conseguiu arrastar o País para a condição de pária, com quem nação alguma quer aproximação, impedindo, inclusive, seus cidadãos de virem ao Brasil e fechando a fronteira para os brasileiros.

Ramos fala em esticar a corda, como sinal de justificativa para um rompimento. É preciso saber do secretário o que vem a ser isso. Por exemplo, incitar a população a invadir hospitais para averiguar ocupação de leitos, seria um ato terrorista? Afinal, sob uma crescente curva de infecção e mortes, até agora 870 mil e mais 43 mil, respectivamente, o presidente, deliberadamente, colocou a população em risco, ampliando o risco de contaminação. Tanto dos desatinados que cumpriram a sua orientação e causaram arruaça em frente a hospitais que agonizam, quanto os enfermos e todas as equipes médica e de segurança. Isso sem contar que desconheceu as informações e orientações do interino Ministério da Saúde do seu governo.

O esticão seria a decisão do Judiciário de jugar culpada a chapa eleita sob fraude? Bolsonaro e militares descompromissados com o Brasil e com a democracia fazem uma interpretação sub-reptícia e oportunista do artigo 142, da Constituição Federal, para se arvorarem contra decisões técnicas de outros Poderes. O recado de Bolsonaro, Mourão e Ramos foi muito claro. Os poderes Legislativo e Judiciário não têm outra alternativa senão rechaçar o posicionamento do Executivo, cobrando a satisfação que ele e as FFAA devem ao País. A sociedade já está bastante flagelada para ser submetida ao desvario autoritário de quem não sabe viver numa democracia e desconhece o seu papel dentro da república. É preciso deixar bem claro que haverá resistência a militares que se mostram, como os de há 56 anos, prontos para servir a classe dominante.

Quem tem trabalhado para defender a classe trabalhadora e a democracia são os partidos de esquerda. Eles apresentam o maior número de projetos que protegem os pobres e a economia e são os que mais e melhor resistem às constantes tentativas do governo Bolsonaro de retirar direitos, afrontar a democracia e entregar a soberania nacional ao desenvolvimento de outros povos. Bolsonaro e Guedes deixam milhões de brasileiros expostos à pandemia enquanto submetem o País aos EUA. Por orientação dos submetidos Augusto Heleno e Ernesto Araújo, Bolsonaro impôs restrições aos fabricantes de tecnologia 5G, da empresa chinesa, Huawei. De tanto o governo Bolsonaro afrontar a China, ela abandonará o Brasil e passará comprar soja dos EUA, coisa de grande interesse para Trump e, pelo visto, para Bolsonaro.

O tempo não oferece mais espaço aos poderes Legislativo e Judiciário para postegar o rechaço à altura. As ruas demonstram que Bolsonaro não tem apoio, mas ele se mantém, aparentemente, impávido. Quem o mantém é o interesse da classe dominante, que continua ganhando com Guedes. Haja vista o PSDB, partido do sistema financeiro e membro do grupo dos 70%, que já declarou ser contra o impeachment de Bolsonaro. O rompimento está colocado por três militares, com tosca retórica de aparência democrática. Para classe dominante brasileira, democracia é apenas um detalhe, se seus lucros não param de crescer. O Brasil viverá a maior e mais longa catástrofe humanitária da sua história, com Bolsonaro ou sob uma ditadura que oculta dados, quando não cadáveres. Qualquer saída que não passe pela democracia e pela vontade popular está fadada ao velho atoleiro de uma das sociedades mais desiguais do mundo, neste País imensamente rico.


Enio Verri é deputado federal, líder do PT na Câmara e professor aposentado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

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