Nem racismo nem risco de vida
Opinião

Maringá tem racismo também

Mário Henrique Alberton


Nem racismo nem risco de vida.

Em Maringá, tivemos três episódios de violência contra negros no intervalo de dez dias.

O primeiro ocorreu no dia 07.11, por volta de 23h, em uma loja de bebidas (Cacique), em que dois angolanos foram espancados por 6 pessoas até desfalecerem por sufocamento causado pela aplicação de um mata-leão.

O segundo episódio de violência ocorreu no dia seguinte, entre 12 e 15h, quando as duas vítimas que tinham sido agredidas no dia anterior se dirigiram até a loja de bebidas, com mais três amigos, para obterem informações sobre os agressores. Lá, foram novamente agredidas e depois perseguidas por três pessoas (duas delas tinham participado das agressões do dia anterior) até a portaria de um condomínio onde buscaram proteção.

O terceiro episódio ocorreu no dia 16.11, por volta de 20h, em um supermercado (Atacadão), quando dois seguranças impediram um angolano de sair com sua compra alegando que ela não tinha sido paga. O angolano pagara a compra por meio de transferência eletrônica do valor que recebera como auxílio emergencial. Embora o valor tivesse saído de sua conta, não houve confirmação de que entrara na conta do supermercado. Como ele insistira que havia pagado a compra pois o dinheiro não estava mais em sua conta, os seguranças lhe aplicaram uma gravata e o levaram até uma salinha onde passaram a ameaçá-lo de morte. A situação foi resolvida com a chegada de dois advogados que intervieram em defesa da vítima.

Infelizmente, os casos estão sendo investigados pela polícia civil como lesão corporal de natureza leve, portanto, sem conotação racista ou risco de vida para as vítimas.

Em 19.11, um consumidor foi morto por conta de agressões praticadas por seguranças do Carrefour em Porto Alegre. Os agressores foram presos em flagrante por homicídio qualificado. Qual a semelhança desse crime com os crimes acima relatados, além de que em ambos havia um policial militar entre os agressores? A vítima também era um negro.

Será que crime ocorrido no Carrefour de Porto Alegre em 19.11 se difere dos acontecidos em Maringá quanto à motivação dos agressores e ao risco de vida às vítimas? Será preciso que um negro morra espancado aqui também para que as autoridades passem a considerar o risco de vida e o racismo intrínsecos nessas agressões?

PS. O angolano agredido no Atacadão estava certo em querer ir embora com a compra, pois o valor correspondente foi retirado de sua conta após ele usar o aplicativo aceito pelo mercado, diferentemente de casos em que a operação não é concluída por recusa do cartão, por exemplo. Em qualquer caso, as agressões jamais seriam justificadas.


Mário Henrique Alberton é advogado, formado pela Universidade Estadual de Maringá e pós-graduado em Ciência Jurídica pela Universidade Estadual do Norte do Paraná

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