Dia da Visibilidade Transexual
Opinião

Dia da Visibilidade Transexual

Margot Jung


Hoje, 29 de janeiro, é o dia da Visibilidade Transexual. No ano passado, em 2020, 175 pessoas travestis e transexuais foram mortas no Brasil. É uma estatística vergonhosa, mas que revela uma face da sociedade forjada no ódio, na intolerância e na incompreensão. Os números dessas mortes aumentam ano após ano. E se tornaram mortes mais violentas e cruéis desde que se começou uma cruzada infeliz contra a batizada “ideologia de gênero”, e expõem o entrelaçamento do aumento da violência contra corpos LGBT e a política atual.

A vítima mais jovem tinha apenas 15 anos e a mais velha, 29. São Paulo foi o estado que mais matou a população transexual. 78% das vítimas eram consideradas negras ou pardas, 77% das mortes tiveram requintes de crueldade e em 72% dos casos, não existia relação entre os criminosos e as vítimas.

Esses dados são levantados e publicados pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e mostram o descaso do Estado para com esse segmento da população. Esses dados podem ser ainda maiores, uma vez que são subnotificados e a falta de dados governamentais prejudicam os registros.

Em contrapartida, as eleições municipais de 2020 também teve o maior número de travestis e transexuais entre as candidatas e eleitas. Foi um aumento de mais de 200% considerando-se os números das eleições de 2016. O que é um alento e mostra que nem tudo está perdido. Em Belo Horizonte, a professora Duda Salabert teve a maior votação da história da cidade.

Mas é imprescindível que o estado volte o olhar para essas cidadãs e cidadãos. É urgente que se façam programas de inclusão social, de geração de renda e trabalho, incentivo aos estudos ou à retomada deles, programas que contemplem essa parcela da sociedade. Muitas vezes, travestis e transexuais são lembradas pelos políticos, apenas na hora de pedir votos, quando tiram fotos com a bandeira do arco íris, mas após eleitos esquecem a população LGBT como um todo.

Enquanto as ações em prol de transexuais estiverem apenas na mão de ONGs, associações civis organizadas e pessoas voluntárias, o progresso será sempre lento. São necessárias ações efetivas por parte do governo para a garantia e ampliação dos direitos, nomeando-se pessoas capacitadas para fazer um bom trabalho que colabore para a cidadania e a dignidade de pessoas transexuais. Que elas sejam lembradas nos demais dias do ano e que sejam reconhecidas e respeitadas como cidadãs deste país.

PS: Em 2020, o Brasil foi o país que mais acessou pornografia transexual nas plataformas de conteúdo adulto.


Margot é pós graduada em Gestão Pública pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), conselheira no Conselho Municipal da Mulher Maringaense, presidente da Associação Maringaense LGBT (AMLGBT) e membro do grupo Mães pela Diversidade.

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