As doenças e a política
Opinião

As doenças e a política

Tania Tait


As pessoas sempre pensam que a política está longe de suas vidas, que a mudança de governos não as afeta. No entanto, quando se deparam com problemas gravíssimos como uma pandemia que mata milhares de pessoas, a situação muda. Aí as pessoas percebem como a política é importante em suas vidas e como um político eleito pode influenciar na vida e na morte de todos.

O Brasil tem histórico de problemas de entendimento das doenças como no caso da tuberculose que matou muitas pessoas; da gripe espanhola; da poliomielite; da meningite escondida no governo da ditadura militar; do vírus HIV e o preconceito atrelado a doença.

No entanto, nada se compara ao que está sendo vivenciado no país. Revoltas da vacina pelo medo do novo como no início do século XX podem ser vistas como “naturais” pois não existia uma comunidade científica consolidada e nem conhecimento sobre a necessidade das vacinas para conter pandemias e salvar vidas.

Agora em 2020, a busca pela vacina se tornou uma disputa política, indiferente a mais de 180 mil brasileiros e brasileiras mortos pelo COVID-19. Junte-se a isso, a falta de planejamento por parte do governo federal e o movimento antivacina para tornar o cenário mais aterrorizante.

Como pudemos chegar a esse ponto depois de termos nos tornado referência mundial no combate à AIDS/HIV, tendo erradicado sarampo e poliomielite e no combate a tantas outras doenças?

Nada é por acaso. Estamos diante de uma posição ideológica clara por parte do governo federal. Posição essa marcada pelo negacionismo que menospreza a evolução da ciência e estimula a ignorância como forma de manutenção do poder e privilégios.

Também, volta ao cenário nacional, a escalada privatista de um mandato vinculado ao neoliberalismo e pela defesa do Estado mínimo que coloca à mercê do mercado, as nossas riquezas naturais, nosso patrimônio e nossos direitos conquistados.

Infelizmente, a saúde entra nesse contexto. Mesmo tendo a saúde garantido constitucionalmente seu acesso para todos sob a responsabilidade do Estado, a falta de planejamento do governo em vacinar a população diante da terrível pandemia faz com que o direito a saúde seja vilipendiado.

Não se pode tolerar que morram mais brasileiros e brasileiros por uma postura ideológica de governo enquanto outros países iniciaram a vacinação em sua população.

Não se pode tolerar que haja desdém por parte de governantes com o bem mais precioso que é a vida.

Não se pode tolerar a perda de mais uma vida sabendo que existe vacina que pode salva-la.


Tania Tait é professora aposentada da UEM, foi presidente do Conselho Municipal da Mulher de Maringá, integrante da Ong Maria do Ingá Direitos da Mulher e do Forum Maringaense de Mulheres. Autora do livro: As mulheres na luta política, lançado em 2020.

Recomendadas pra você
Opinião

Quero me vacinar

Margot Jung Na última semana de janeiro, um grupo de ex-subprocuradores-gerais da República acusou Bolsonaro de ter incorrido no Artigo 267 do…
Opinião

Dia da Visibilidade Transexual

Margot Jung Hoje, 29 de janeiro, é o dia da Visibilidade Transexual. No ano passado, em 2020, 175 pessoas travestis e transexuais…
Opinião

Negros na faculdade

Pablo Villaça Hoje, a Folha de São Paulo publicou a seguinte manchete nas redes sociais: “Década colocou os negros na faculdade, e…